
De acordo com pesquisas nunca realizadas, 8 entre cada 10 lares brasileiros sofrem com a relação “tóxica” entre homens e o futebol. Diante disso, eu, que sou PhD em Psicologia pela Universidade das Ruas, onde faço também meu doutorado em Neurociências Alternativas, resolvi estudar esse fenômeno, e aqui estão os resultados:
A maioria dos homens que lidam com esse problema são analfabetos emocionais. Parece pesado, mas eu mesmo só descobri que sofro dessa condição quando minha psicóloga começou a me perguntar “como eu estava me sentindo”, e eu precisava do auxílio de um dicionário de emoções, claramente direcionado para o público infantil, para poder identificar meus próprios sentimentos e emoções. Então, cuidado antes de me julgar, talvez você esteja no mesmo barco que eu, meu chapa.
Além disso, existem muitas emoções que nós até identificamos, mas reprimimos. Por outro lado, o futebol se tornou o ambiente socialmente aceito para homens expressarem seus sentimentos. E isso faz com que a gente projete muita coisa reprimida na nossa relação com o time do coração.
Às vezes, a gente só fica tão abalado com a eliminação do time na Copa Libertadores porque, no fundo, isso representa uma ferida relacionada a algo que não conseguimos realizar na nossa vida pessoal ou profissional.
Talvez o medo de ver nosso time ser rebaixado para a segunda divisão do futebol venha do desejo de identificação pessoal com a “elite”, com a “primeira divisão” da sociedade, uma forma de compensar pelas áreas da vida em que nos sentimos insuficientes.
Pode ser que, quando um torcedor grita com a imagem na TV do atleta Lucas Paquetá depois de uma cobrança de pênalti bizonha, ele esteja, na verdade, expressando sentimentos reprimidos ligados a algum momento da vida em que teve vergonha dos próprios erros.
Quem sabe o cara que xinga o juiz e dá um chilique dizendo que seu time tá sendo roubado seja apenas um cara que se sente injustiçado pelo sistema.
As novas gerações talvez nunca entendam a sensação de ver a seleção brasileira compensar por todos os problemas sociais do Brasil, de modo que nos permitia olhar para países europeus de cima para baixo com um orgulho inexplicável de ser brasileiro.
Da mesma forma gritamos gol com a voracidade tal qual a de um galo de briga cujo cérebro é menor que uma castanha do pará, toda alegria e todo desejo por alegria se expressam na catarse do grito ensandecido de gol.
Nas noites de quarta-feira, quando os times se enfrentam pelo Brasileirão, o que está em jogo não é apenas a pontuação do campeonato ou a grana das bets. Milhares de homens dissociam da realidade na expectativa de uma alegria que, mesmo sendo artificial, é capaz de fazer com que nossos cérebros produzam serotonina, o hormônio da felicidade, para nos iludir e nos distrair de um mundo real com o qual não conseguimos lidar, muitas vezes por falta de terapia.
Então, a gente torce e se envolve emocionalmente com o jogo porque a vitória representa a possibilidade de uma boa noite de sono e um prolongamento das nossas férias em um mundo de fantasias, onde ver ricaços chutando uma bola pode anestesiar nossas dores. Também por isso, não queremos perder; não queremos sair desse parque fantasioso e voltar para o “mundo real”, onde nós somos a bola que os ricos chutam. O futebol é a Disneylândia de homens adultos com sérias questões psicológicas mal resolvidas, como eu.
Matheus é escritor, autor do livro Eli e o Rio; advogado, membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RO e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Rondônia.
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